A gravura é uma das linguagens mais vivas da arte brasileira e uma das mais invisíveis dentro do mercado. Técnica ancestral, processo lento, resultado singular: cada matriz carrega a marca de um artista, de um ateliê, de um corpo e de um tempo. No entanto, boa parte dessa produção nunca chega ao público. Fica no circuito especializado, nas mapotecas, nos bastidores de espaços que o circuito comercial raramente alcança.
Criada em 2024 por Ana Carla Soler e Julia Contreiras, a Engrave é uma feira dedicada à produção de gravura artística gerada em ateliês. Não é uma feira de artes gráficas. Não é uma feira de impressos. É um encontro entre quem faz e quem quer levar para casa.
A proposta é simples e direta: cada ateliê tem uma mesa e uma estrutura de trainel ao fundo para apresentação de seus trabalhos. Ali, as obras desenvolvidas no cotidiano da prática, aquelas que raramente entram numa galeria, que existem pela força da linguagem e não pela lógica do mercado, encontram seu caminho até o público. A venda é direta, sem intermediários. A conversa é possível e a arte acessível.
A Engrave não compete com galerias nem substitui feiras tradicionais. Ela ocupa um lugar que ainda não existia. Um espaço onde a gravura pode ser vista pelo que ela é, ou seja, uma linguagem artística de múltipla, diversa e urgente, ainda que o mercado ainda não tenha aprendido a valorizar. Acreditamos que incentivar a produção é também criar condições para que ela circule e que uma feira independente pode ser, ela mesma, um ato político em favor da arte.
A Engrave nasceu para mudar isso.
ANA CARLA SOLER é curadora independente e pesquisadora. Graduada e mestranda em História da Arte pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, graduada em Relações Públicas pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduada em Direção e Gestão de Marketing pela Universidade de Barcelona. Tem sua pesquisa direcionada à presença das mulheres no ensino e sistema da arte. Por meio de estudos de caso de gravuristas brasileiras, como Edith Behring e Fayga Ostrower, investiga os meios de legitimação e permanência de artistas na historiografia da arte. Em 2026, é mentora do Programa de Residência Estudos Curatoriais no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio). Em 2023, foi selecionada para a Residência de Pesquisa do Instituto Inclusartiz. Em 2022, foi premiada no Edital OMA de curadoria.
Assinou a pesquisa e curadoria de exposições em instituições como Museu do Amanhã, Museu de Arte do Rio (MAR), MAMAM Recife, Casa Fiat de Cultura, Centro Cultural PGE-RJ, ArtRio, SESC Rio de Janeiro e Centro MariAntônia – USP. Ministra cursos que investigam as relações entre a Arte e a Comunicação. É co-criadora do projeto digital Elas Estão Aqui (@elasestaoaquinaarte), curadora no Coletivo Artistas Latinas (@artistaslatinas) e parte do coletivo MOTIM – Mito, rito e cartografias feministas nas artes.
JULIA CONTREIRAS nasceu e atua São Paulo como designer, artista e arte-educadora, é mestra em Design na área de experimentação gráfica pela FAU/USP (2019), onde também graduou-se em Design (2015), além de ter formação complementar em gravura em diversos cursos livres. Desde 2016 desenvolve atividades educativas e práticas em instituições e ateliês como Museu da Língua Portuguesa (2018), Oficina Cultural Oswald de Andrade (2018, 2019, 2022, 2023), Lugar de Ler (2019, 2021) e Bananal (2022, 2024).
Participou de exposições com seu trabalho autoral em gravura, onde explora a figura do corpo como processos de auto-reconhecimento, destacam-se “Diorama”, Bananal (São Paulo, 2023); “Radar”, Ateliê 284, (São Paulo, 2023); “E se nada houvesse entre nós”, Bananal (São Paulo, 2022), “Câmbio-Gráfico”, Museu Casa da Xilogravura (São Paulo, 2022), “Escapamentos”, Bananal (São Paulo, 2021) e “Impressões Urbanas”, Galeria Ocuparte, (São Paulo, 2017). Organizou, em parceria com Merien Rodrigues, a duas primeiras edições (2022 e 2023) da feira de artes gráficas A.F.A.G.O, na Oficina Cultural Oswald de Andrade. Atualmente, integra o coletivo de artistas do Bananal Arte e Cultura Contemporânea, onde compartilha um ateliê e colabora com atividades educativas e culturais.